Domingo, 16 de Novembro de 2008

 A actual crise do sistema económico-financeiro coincidiu com a celebração do 160º centenário do "Manifesto do Partido Comunista" de Marx e Engels que, diga-se em abono da verdade, foi um dos maiores êxitos editoriais de sempre, só suplantado pela Bíblia e por Shakespeare e que teve consequências que abalaram o Mundo no século XX.

Que hoje se ressuscite Marx como uma alternativa ao neo-liberalismo, só é possível  em especulação de académicos, à semelhança do que está a acontecer nos encontros da Gulbenkian sobre o pensamento de Marx.

Vamos por partes, para melhor compreender a impossibilidade de uma alternativa marxista. Aliás,é necessário que se sublinhe que todas as alternativas marxistas de poder configuraram sistemas totalitários. Outra coisa não poderia ter acontecido.

A primeira frase do Manifesto do Partido Comunista expressa a essência do marxismo: " A história da sociedade até aos nossos dias,é a história da luta de classes".

Como surgiu o Manifesto?

Em 1845, Marx estava exilado em Paris, donde foi expulso devido aos seus textos no "Anuário Germano- Francês". Seguiu para Bruxelas. Engels foi ter com ele. Na capital belga ( país com não mais de duas décadas de Estado), juntaram-se à recém-formada Liga Comunista que os incentivou a redigir um manifesto para a organização. Manifesto do Partido Comunista é falacioso, pois ainda não existia um partido comiunista sequer.

O ano em que o Manifesto foi publicado,1948, foi o ano de todas as revoltas na Europa. Em Janeiro rebentou um movimento revolucionário na Sicília; em fevereiro, outro em Paris. Seguiram-se a Itália e  o resto da Alemanha. Os focos revolucionários foram violentamente esmagados. Marx defende como resposta à repressão sangrenta a resistência armada.

Julgado em tribunal, é absolvido, mas condenado ao exílio em Londres onde passa 10 anos recolhido a tomar notas no British Museum para a sua obra capital, "O Capital", com a ajuda financeira de Engels que abandona o jornalismo e vai trabalhar para a fábrica do pai. Aí estuda Hegel e Feurbach, Smith e Ricardo.

Qual o pensamento de Marx expresso no Manifesto para se chegar a uma sociedade sem classes?

Em síntese: quando o capitalismo caísse, fruto das suas contradiçõers internas, haveria uma revolução e o proletariado apropriar-se-ia dos meios de produção. Instalar-se-ia a "ditadura do proletariado". Conclusão de Marx: "Com esta transformação social, a pré-história da sociedade chega ao fim".

Seguir-se-ia uma utopia socialista.

A luta entre classes seria substituída  por uma sociedade sem classes.

Desapareceria o Estado, bem como as relações de mercado.  E toda a gente receberia pelo preço justo. Ou seja, nas palavras de Marx:" De cada um, segundo as suas capacidades; a cada um, segundo as suas necessidades" .

Marx enganou-se nas contradições do capitalismo, pois as contradições, historicamente, não têm levado à sua destruição, mas antes à sua evolução. Ao contrário, os sistemas do chamado "socialismo real" nas suas contradições têm levado à sua implosão. A própria noção de proletariado, assente no conhecimento de realidade operária da sociedade inglesa do século XIX, é hoje uma questão obsoleta e anacrónica. Se reparmos no caso português, as manifestações já não são do proletariado, mas sim da pequena burguesia ou da classe média. Ou seja, não deixa de ser curioso que os grandes suportes do Partido que se diz da vanguarda da classe operária, sejam a função pública e outras expressões interclassistas.

Ainda no Manifesto podemos encontrar algumas ideias caras a Marx, propondo uma lista de reformas para o sistema capitalista: impostos progressivos, abolição do trabalho infantil, educação gratuita ( pressupostos advogados pelos enciclopedistas e pela filosofia das Luzes, mas também recolhidos da realidade social inglesa do século XIX tão bem retrada em Charles Dickens, nomeadamente no "David Copperfield"). Mas vai mais longe, Marx: defende a abolição da propriedade privada e o monopólio do Estado em áreas como a banca, as comunicações, os transportes e todos os meios de produção.

O Manifesto termina com o célebre apelo às armas, apelo este, dificilmente defensável, bem com a tese da ditadura do proletariado, por partidos como o PCP. Escreve Marx: "Os comunistas não procuram sequer ocultar as suas posições e objectivos"--o que actualmente não é verdade--" Declaram publicamente que os seus fins só podem ser atingidos através do derrube violento de todas as condições sociais existentes. Que as classes dominantes tremam perante a revolução comunista. O proletariado não tem nada a perder senão as suas grilhetas. Proletários de todo o Mundo uni-vos". 

Que estas propostas face à crise capitalista sejam alternativas só no estudo bizantino e académico.

O primeiro a dizer que não era marxista foi o próprio Marx. O próprio Engels, no último escrito, no ano da sua morte, 1895, levanta a possibilidade de uma conquista pela via parlamentar, uma heresia, ainda considerada como tal pelo próprio Álvaro Cunhal que, em entrevista a Oriana Falacci, declarava taxativamente que em Portugal não haveria uma democracia burguesa, ou seja, uma democracia parlamentar.

Vale a pena recordar que após o esmagamento sangrento da Comuna, em 1870, houve um forte desenvolvimento da classe operária na Alemanha a ponto de nas eleições o Partido Social Democrata de Rosa Luxemburgo ter conseguido 27 por cento dos votos.

Já na Itália, Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano que morreu nas masmorras de Mussolini, defendia uma revolução 'cultural' proletária (não uma ditadura) e conselhos de fábrica, como aconteceu em Turim com a ocupação de fábricas ( e foram esmagados) e foi proposto na Covilhã num Congresso da CGT pelos anarco-sindicalistas, para uns, sindicalistas revolucionários para outros, o que não veio a acontecer. Haverá mais tarde a experiência do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande.

Mas a ditadura do proletariado preconizada por Marx foi substituída pela ditadura do Partido, que por sua vez criou um núcleo de dirigentes privilegiados, os sustentáculos da burocracia que, em última instância, respaldados pelo sistema repressivo, criaram a nomenclatura.

Rosa Luxemburgo vai avisando, em vão, Lenine, deste perigo que só reconhece no ano da sua morte, 1923,no texto "Vale mais menos mas melhor" em que procura recordar  que a ditadura do proletariado não é a mesma coisa do que a ditadura do Partido.

Sucede-lhe Staline  que lança o marxismo às malvas, ainda que o use como sua herança. Contra Marx, apregoa o socialismo num só país. Vem Krutchov, a guerra fria está no auge, viva a teoria dos dois campos e da correlação de forças ( os belicistas Nato e Pacto de Varsóvia), mas compreende que não é o marxismo que pode destruir o capitalismo e aceita mesmo a passagem pacífica para o socialismo através da via parlamentar. É a tese da coexistência pacífica e da diversidade de vias para o socialismo, teses nunca aceites pelo PCP ( ver Rumo à Vitória, o relatório de Cunhalao VI Congresso do PCP que defende a insurreição nacional para a tomada do poder)

O PCP no VII Congresso extraordinário de Outubro de 1974, retira dos seus Estatutos, por analogias perigosas com o anterior regime, a ditadura do proletariado. Em´que já não acreditava, aliás, assente na nomenclatura do Partido e na funcionalização dos seus dirigentes.

Todas as experiências de prática marxista deram em ditaduras, fosse em África, nos países de Leste, na Coreia do Norte ou na China. Nunca pode ser alternativa ao capitalismo ( o capitalismo combate-se dentro do capitalismo, não os seus princípios, na essência da Democracia ---a liberdade de expressão, a liberdade de reunião, o interclassismo, a propriedad privada, a iniciativa privada, a meritocracia---) mas antes na sua metodologia e na correcção dos seus desvios que, não poucas vezes violentam os direitos humanos e a dignidade do indivíduo.

Em blog futuro gostaria de reflectir sobre a criação do Socialismo em Portugal, pelas personagens como José Fontana que se escreveu com Marx, Nobre França que se carteou com Engels, Azevedo Gneco ( leia-se Nheco porque era de ascendência italiana) e Antero de Quental.

Na génese do socialismo português do século XIX ( sem a amrca jacobina dos republicanos), se há alguma inspiração de Marx, há sobretudo a grande influência de Proudhon.

Rogério Rodrigues



publicado por rogério às 17:03 | link do post | comentar

1 comentário:
De r a 17 de Novembro de 2008 às 15:05
Brilhante!!!! Excelente perspectiva histórica e mais actual que nunca.

É obrigatório ler este Post!

RFaria


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